Saída do cabeleireiro, tarde para caraças, lá me meti a caminho de casa.
Cheguei à estação de Entrecampos, e de imediato constatei que tinha acabado de perder o raio do comboio (coisa boa, meia hora de seca à espera do próximo).
Enquanto olhava para o placar, a tentar perceber quando era o próximo comboio, fui abordada por uma senhora (na casa dos trinta e muitos, ou seja, pouco mais velha do que eu… livra!!), que me pergunta:
Ela – Ía apanhar o comboio para Setúbal?
Eu – Ía, mas já passou. Agora só daqui a 20 ou 30 minutos, não sei bem.
Ela – Pois, acho que agora só daqui a 30 minutos. Vamos ter que perder um bom bocado.
Bom, pensei que a coisa se ficava por ali, mas qual quê. Sentei-me, coisa que a respectiva senhora também fez, e logo de seguida, saltou outra pergunta.
Ela – Desculpe, tem telemóvel? Sei que mal me conhece, mas tem?
Eu (cá para comigo) – Livra.. o que é que esta quer??!!
Eu – Tenho.
Ela – É que me esqueci do telemóvel na terra e precisava de avisar o meu marido para me ir buscar. Podia-me emprestar o seu? Eu posso pagar a chamada.
Eu (cá para comigo) – Boa acção do dia – emprestar o telemóvel para a dita chamada. Também não custa nada né.
Eu – Sim, sim, sem problema. Qual é a rede mesmo?
Ela – TMN.
Eu – Tem aqui. Pode marcar.
Entretanto lá fala com o marido, agradecendo de seguida o empréstimo do telemóvel.
Desenrola-se uma conversa sobre o facto de estar um pouco de frio, entre outras coisas.
Rapidamente fico a saber que a senhora é casada, que está a fazer um curso de espanhol do qual o marido não tem conhecimento, que é muito doente, etc, etc.
Na tentativa de manter a conserva para não parecer antipática, sempre tentando evitar alguns pormenores da vida alheia, lá vou tecendo alguns comentários.
Eu – Estou a ficar com fome.
Ela – Eu também. E quando fico com fome começa-me a doer o estômago. E quando me dói o estômago fico com gazes. Blá, blá, blá.
Ó valha-me Deus, por favor! Com tamanha barbaridade, nem me lembro do que me disse de seguida…
Não havia necessidade de partilhar tal aspecto íntimo comigo. Eu dispensava saber que a senhora tem gazes quando lhe dói o estômago. Caramba…
Será que a loira que há em mim teria pachorra para aturar tal conversa, como o fez a morena? Fica a dúvida no ar… Quem sabe…
Depois ainda tive oportunidade de saber que a respectiva senhora andava muito cansada, uma vez que tem andado a visitar uma amiga que foi operada ao estômago devido a um cancro. (Mais uma vez dispensava os pormenores – imaginem o que seria se eu andasse deprimida. No mínimo começava a chorar com a desgraça alheia!!).
A dada altura pensei – mas que bela conversa para ter, a estas horas, com uma desconhecida (que diga-se, devia pensar que me conhecia há imenso tempo).
Terminada a ladainha, aparece finalmente o comboio.
Eu (cá para comigo) – É agora que me livro dela.
Mas qual quê, assim que me sento fico acompanhada de imediato.
Quando finalmente o kimboio chegou ao Pragal, ainda tive um convite para boleia, que gentilmente recusei (nunca me senti tão feliz por ter carro…).
Acabada a boa acção do dia, a morena e vitaminada voltou para casa, com a sensação de dever cumprido. Custou mas foi…
Ele há dias assim… ;)

4 comentários:
ri-me. a solidão tem destas coisas. a nós dá-nos para ficar no nosso canto (por enquanto!), a outros dá-lhes para falarem com estranhos como se fossem conhecidos de longa data!
e pronto lá fiquei a saber que estás morena. não sei se me lembro desse teu lado... ;-)
Ana - Lembras-te certamente! Assim que me vires, reconheces-me de imediato. Ao menos já estás a contar e não apanhas um susto de morte!
Encontramo-nos para a semana na Invicta!;)
Beijo grande.
LOL. Realmente há pessoas que não medem o quanto é que devem dizer ou calar. falam, falam, falam. Eu normalmente uso uma técnica infalível... chama-se ipod. recomendo
Psyhawk - Eu até que tinha o mp3, ifelizmente não o utilizei a tempo de evitar contactos imediatos do 3.º grau!!;)
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